A política acontece no espaço público da aparência

A política nunca foi apenas administração de recursos ou organização do Estado. Desde a antiguidade, ela acontece no espaço da aparência, isto é, no lugar onde os homens se mostram uns aos outros, falam, agem e disputam reconhecimento.

A política nunca foi apenas administração de recursos ou organização do Estado. Desde a antiguidade, ela acontece no espaço da aparência, isto é, no lugar onde os homens se mostram uns aos outros, falam, agem e disputam reconhecimento. A vida política é, desde a origem, teatral. Não no sentido vulgar de farsa imediata, mas no sentido estrutural de que aquilo que não aparece publicamente não existe politicamente.

Essa intuição foi formulada com rigor por Hannah Arendt, sobretudo em A Condição Humana. Para Arendt, a política nasce quando ação e discurso se tornam visíveis e audíveis diante de outros. Onde não há aparência pública, não há política, apenas administração privada.

É nesse ponto que se compreende por que a política sempre conviveu com rituais, símbolos, discursos, gestos e encenações. Governar é também aparecer governando. Liderar é também parecer digno de liderança. A legitimidade política depende menos da virtude invisível e mais da confiança visível.

A lógica do parecer

Nesse contexto, a velha máxima atribuída a Júlio César ,de que à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta, ganha nova atualidade. Não se trata de moralismo, mas de realismo político. No espaço público, a aparência faz parte da substância do poder. Quando a aparência se rompe, a autoridade se dissolve, mesmo que a intenção privada seja correta.

O risco contemporâneo é quando o parecer se emancipa completamente do ser. Quando a política se reduz a marketing moral, a governança cede lugar à gestão de imagem. O palco permanece, mas a realidade desaparece. O teatro deixa de ser legítimo e se converte em farsa.

Pseudo-virtudes

Se a política acontece no espaço da aparência, os meios de comunicação são, por definição, atores políticos centrais. A televisão, ao selecionar quem aparece, como aparece e com qual enquadramento, não apenas informa. Ela organiza o espaço público da visibilidade. Ao fazer isso, molda reputações, destrói legitimidades e cria heróis ou vilões morais.

A televisão não precisa mentir para exercer poder político. Basta mostrar seletivamente, repetir narrativas, dramatizar conflitos e simplificar dilemas complexos em histórias morais fáceis de consumir. Nesse ambiente, o teatro moral encontra terreno fértil. O debate cede lugar à encenação. A política se aproxima do espetáculo.

Com as redes sociais, esse processo se radicaliza. Plataformas como Instagram transformaram aparência em capital direto. A felicidade exibida, o engajamento moral performado e a indignação pública passaram a gerar recompensa simbólica imediata. Curtidas, seguidores e alcance substituem critérios mais lentos como coerência, caráter e responsabilidade.

A pseudo-virtude digital tem traços claros. Ela é ruidosa, rápida, simplificadora e intolerante à dúvida. Não busca compreender, mas alinhar. Não argumenta, acusa. Não suporta silêncio, porque o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser interpretado como culpa.

O teatro moral

O problema começa quando o palco deixa de servir à realidade e passa a substituí-la. Aqui entra o conceito de teatro moral. Trata-se do uso da moral não como orientação da consciência, mas como linguagem estratégica de poder. Em vez de agir bem, passa-se a parecer bom. Em vez de discutir o justo e o injusto, encena-se virtude para conquistar autoridade simbólica.

Nesse teatro, a moral precisa ser pública. Ela exige plateia, indignação visível, aplauso coletivo. Sem espectadores, a pseudo-virtude perde eficácia. Por isso, ela se alimenta de escândalo, exposição e julgamento permanente.

O essencial em poucas linhas

A política é inevitavelmente teatral porque acontece no espaço da aparência.
O problema não é o palco, mas a mentira encenada.
A pseudo-virtude transforma a moral em espetáculo.
Mídias tradicionais e redes sociais ampliam esse processo ao recompensar quem parece mais do que quem é.
Quando o parecer substitui o ser, a política perde substância e a sociedade perde o juízo.