Mostrar o desvio de conduta das pessoas é o freio moral da sociedade

A imprensa como fiscal do poder

Costuma-se dizer que a imprensa existe para fiscalizar o poder. A frase é correta, mas vaga. Para compreendê-la de verdade, é preciso abandonar a ideia de que fiscalizar significa mandar, punir ou governar. A imprensa não faz nada disso. Ela não é um poder constitucional, não assina decretos, não aprova leis e não prende ninguém. Ainda assim, exerce uma influência profunda sobre o funcionamento da vida pública.

O papel real da imprensa é mais simples e, ao mesmo tempo, mais poderoso: ela mostra.

A imprensa funciona como um espelho ou como uma câmera ligada permanentemente sobre o espaço público. Ela registra ações, decisões, contradições e comportamentos de quem ocupa cargos de autoridade e os apresenta à sociedade. Esse simples ato de tornar visível algo que antes estava restrito aos bastidores muda radicalmente o jogo do poder.

No Brasil, isso fica evidente em inúmeros episódios recentes. Durante décadas, práticas como favorecimento político, uso privado de recursos públicos e troca de favores eram tratadas como normais. Muitas dessas condutas não vinham a público porque não havia interesse, estrutura ou liberdade para expô-las. Quando começaram a ser noticiadas de forma sistemática, o impacto não foi apenas jurídico, mas sobretudo moral.

O escândalo do Mensalão é um exemplo claro. Antes das denúncias ganharem espaço na imprensa, a compra de apoio político no Congresso era vista por muitos como parte do “funcionamento real” da política. A partir do momento em que jornais, revistas e telejornais passaram a mostrar nomes, valores, esquemas e consequências, algo mudou. Mesmo antes das condenações, a reputação pública dos envolvidos foi profundamente abalada. O julgamento social antecedeu o julgamento legal.

Isso mostra um ponto central: a imprensa não pune como um tribunal, mas constrange como um espelho diante de todos. Ao expor o comportamento de autoridades, ela ativa um tipo de julgamento coletivo. A sociedade passa a olhar, comentar, reprovar ou pressionar. Essa reação cria um custo moral que o poder, por si só, não elimina.

Outro exemplo marcante ocorreu durante a Operação Lava Jato. Independentemente das avaliações posteriores sobre seus métodos e excessos, é inegável que, no período inicial, a exposição constante de contratos, delações, cifras e relações entre políticos e empresários produziu um efeito imediato. Autoridades passaram a agir com mais cautela. Empresários recuaram de práticas antes consideradas corriqueiras. Não porque todos se tornaram éticos de repente, mas porque sabiam que poderiam ser vistos, gravados, noticiados e julgados publicamente.

Aqui está o ponto decisivo. A imprensa cria um ambiente em que o poder deixa de ser exercido no escuro. Ela não impede o erro, mas torna o erro visível. E muita coisa só prospera enquanto permanece escondida.

Essa visibilidade confere à imprensa uma dimensão moral, mesmo que ela não se apresente como moralista. Ao mostrar um desvio, um abuso ou uma incoerência, ela não precisa dizer explicitamente “isso é errado”. A exposição já carrega esse significado. O cidadão comum entende. A sociedade reage. A reputação sofre.

No Brasil, onde a ética institucional é frequentemente frágil e a confiança nas instituições é baixa, esse papel se torna ainda mais importante. Em contextos assim, a imprensa acaba funcionando como um freio informal do poder. Quando o limite interno, que deveria vir da consciência e dos valores, não é confiável, o limite externo da exposição pública assume protagonismo.

Isso ajuda a entender por que tantos agentes públicos reagem com hostilidade à imprensa. O incômodo raramente está no erro jornalístico em si, mas no fato de que o comportamento foi colocado à luz. A crítica recorrente de que “a imprensa atrapalha” costuma surgir justamente quando ela cumpre sua função essencial de mostrar o que estava fora do alcance do olhar público.

Não é por acaso que governos autoritários, no Brasil e no mundo, tentam controlar, desacreditar ou sufocar a imprensa. Eles não o fazem porque a imprensa governa, mas porque ela revela. E quem depende do segredo para manter poder teme mais a luz do que a lei.

Isso não significa afirmar que a imprensa seja infalível ou moralmente superior. Ela erra, exagera, escolhe pautas, tem interesses econômicos e visões ideológicas. Esses problemas existem e precisam ser reconhecidos. Ainda assim, mesmo imperfeita, a imprensa cumpre uma função que nenhuma outra instituição desempenha da mesma forma: tornar público o que o poder preferiria manter restrito.

Quando um prefeito desvia verbas da saúde e isso vira notícia, quando um juiz tem privilégios expostos, quando um parlamentar é flagrado mentindo, a imprensa não está substituindo a Justiça. Está criando um ambiente em que a sociedade passa a exigir explicações, coerência e responsabilidade. Isso é poder simbólico, não legal. Mas é poder real.

Em sociedades com valores sólidos, a imprensa atua como complemento. Em sociedades onde a ética é instável, ela se torna uma linha de defesa fundamental. Ela não cria virtudes, mas dificulta a hipocrisia. Não forma caráter, mas limita abusos.

A imprensa não é um poder constitucional, mas exerce uma função moral indireta porque transforma o comportamento do poder em algo observável. E, quando o poder é observado, ele muda. Nem sempre para melhor, mas raramente permanece igual.

No fim das contas, a imprensa não governa, não legisla e não julga. Ela ilumina. E, muitas vezes, em países como o Brasil, essa luz é o que separa o abuso silencioso do constrangimento público.

Onde a lei demora a chegar, a exposição chega antes.
E onde há desvio de conduta, o olhar coletivo ainda pode impor limites.