Interdependências, tensões e influências
A relação entre jornalismo e política sempre foi marcada por uma tensão constitutiva: ao mesmo tempo em que a imprensa se apresenta como espaço de crítica e vigilância do poder, ela é também um ator político de primeira ordem, capaz de influenciar governos, moldar opiniões e até mesmo produzir lideranças. A célebre definição de Max Weber, ao caracterizar o jornalista como uma espécie de “político sem mandato”, sintetiza essa ambiguidade: ainda que não ocupe cargos eletivos, o jornalista intervém diretamente no espaço público, mediando debates, pautando agendas e mobilizando a sociedade.
No Brasil, a imbricação entre jornalismo e política foi ainda mais evidente. Durante boa parte do século XX, os jornais não eram apenas meios de informação, mas instrumentos de disputa partidária, porta-vozes de ideologias e trincheiras de combate político. A trajetória de jornalistas que se tornaram políticos, como Carlos Lacerda, é um dos exemplos mais emblemáticos dessa fusão.
O Jornalismo como espaço político
Desde o surgimento da imprensa periódica, o jornalismo se constituiu como um espaço de articulação política. No século XIX, jornais como o “Correio Braziliense” de Hipólito da Costa já funcionavam como instrumentos de crítica ao absolutismo português e de mobilização das elites em torno da independência. A imprensa, nesse contexto, não era apenas um meio de informação, mas um campo de batalha ideológica.
Esse caráter engajado perdurou até a primeira metade do século XX. Segundo estudos sobre a modernização da imprensa carioca, até os anos 1940 os jornais brasileiros eram essencialmente instrumentos políticos: pequenos em tiragem, dependentes de financiamento estatal ou de grupos de poder, funcionavam como veículos de opinião, onde predominava a linguagem agressiva e polêmica. A notícia, como registro “objetivo”, ainda não tinha primazia sobre o comentário e a crítica.
Esse cenário começou a se transformar nos anos 1950, com a adoção de técnicas do jornalismo norte-americano, como o lead e a pirâmide invertida, que privilegiavam a objetividade e a rapidez da informação. No entanto, como demonstra a pesquisa histórica, essa modernização não eliminou o componente político. Ao contrário: jornais como o Última Hora, fundado por Samuel Wainer, utilizaram as novas técnicas gráficas e narrativas justamente para fortalecer um projeto político, no caso, o populismo varguista.
Portanto, a profissionalização e modernização do jornalismo não significaram a neutralização da política, mas sim uma nova forma de instrumentalização do discurso jornalístico no espaço público.
Max Weber e o Jornalista como “político sem mandato”
A reflexão de Max Weber, feita em suas conferências sobre “A política como vocação” e “A ciência como vocação”, é fundamental para compreendermos a relação entre jornalismo e política. Para Weber, o jornalista, assim como o intelectual, exerce influência direta sobre a formação da opinião pública, ainda que não disponha de mandato popular. Sua arma não é o voto, mas a palavra impressa (ou, hoje, digital).
Essa concepção se mostra particularmente adequada para entender o papel do jornalismo em regimes democráticos e autoritários. Em contextos de restrição política, como durante o Estado Novo (1937–1945) no Brasil, o jornalismo era submetido à censura, mas ainda assim se constituía como espaço de resistência e circulação de ideias. Em democracias, o jornalismo é um dos principais mediadores entre governantes e governados, e sua independência, ainda que relativa, é condição para a vitalidade do debate público.
Jornalistas que se tornaram políticos
A passagem de jornalistas para a política institucional é um fenômeno recorrente e ilustrativo da proximidade entre os dois campos. No Brasil, o exemplo mais notório é o de Carlos Lacerda. Conhecido como “o Corvo”, Lacerda começou como jornalista combativo, opositor ferrenho de Getúlio Vargas. Sua atuação na imprensa, especialmente à frente da Tribuna da Imprensa, lhe conferiu notoriedade nacional e abriu caminho para sua carreira política, que culminaria no governo do estado da Guanabara nos anos 1960.
No cenário internacional, exemplos abundam: Benito Mussolini, antes de se tornar líder fascista na Itália, foi jornalista; nos Estados Unidos, Warren Harding, eleito presidente em 1920, havia sido dono de jornal. Esses casos reforçam a ideia de que o jornalismo pode funcionar como trampolim para a política.
A Influência do Jornalismo no debate público
O poder do jornalismo reside não apenas em informar, mas em construir a realidade socialmente percebida. Como lembra Walter Lippmann, um dos principais teóricos da comunicação, o público não reage ao “mundo real”, mas às imagens que os meios de comunicação produzem dele. Assim, a imprensa desempenha papel crucial na formação da agenda pública.
No Brasil, essa influência foi determinante em momentos críticos da história política. Durante o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, por exemplo, o papel da imprensa foi duplo: de um lado, a pressão constante de jornais oposicionistas, como os de Lacerda; de outro, a comoção nacional provocada pela Carta Testamento, amplificada pelos meios de comunicação, que transformou Vargas em mártir.
Outro episódio emblemático foi o golpe militar de 1964, no qual grande parte da imprensa apoiou a derrubada de João Goulart. Essa posição contribuiu para legitimar a intervenção militar e enfraquecer a resistência democrática. Já na redemocratização, nos anos 1980, a imprensa teve papel central na divulgação das Diretas Já, ajudando a mobilizar milhões de brasileiros.
Mais recentemente, o jornalismo televisivo e digital mostrou sua força na construção de narrativas sobre escândalos de corrupção, como o Mensalão e a Operação Lava Jato, moldando percepções públicas que tiveram impacto direto nas eleições e no destino de governos.
A Dialética entre autonomia e dependência
Embora o jornalismo se apresente como campo autônomo, com regras próprias de profissionalização e técnicas narrativas específicas, sua história revela uma constante dependência de fatores políticos e econômicos. No Brasil, até os anos 1950, muitos jornais sobreviviam graças a empréstimos estatais e favores políticos. Mesmo hoje, a dependência de grandes anunciantes e de verbas públicas de publicidade coloca em xeque a independência plena da imprensa.
Essa dialética entre autonomia e dependência explica as ambiguidades do jornalismo político: ao mesmo tempo em que fiscaliza o poder, muitas vezes precisa dele para sobreviver. Ao mesmo tempo em que se proclama objetivo, intervém de forma decisiva no debate público.
Palavra Final
A história do jornalismo mostra que ele nunca foi e provavelmente nunca será, um campo neutro em relação à política. Do Correio Braziliense de Hipólito da Costa à cobertura das eleições no século XXI, a imprensa sempre desempenhou o papel de ator político, seja na crítica, na legitimação ou na mobilização social.
A análise de Max Weber permanece atual: o jornalista é um político sem mandato, cuja arena de atuação é o espaço público mediado. Casos como o de Carlos Lacerda exemplificam essa passagem entre os dois campos, mas mesmo aqueles que não ingressam na política formal exercem influência direta sobre ela.
Assim, compreender a relação entre jornalismo e política é compreender a própria dinâmica da democracia e dos conflitos sociais. Em última instância, é reconhecer que a palavra impressa ou digital, pode ser tão poderosa quanto o voto.
