A pergunta parece simples, mas guarda uma complexidade histórica e filosófica que precisa ser destrinchada. Há intelectuais que falam em público sem jamais disputar cargos, assim como há políticos que manejam ideias sem nunca tê-las elaborado. A relação entre pensamento e poder nunca foi linear. Ela é, antes de tudo, uma tensão permanente.
O intelectual público e a esfera das ideias
O intelectual com atuação pública é aquele que não se restringe às paredes da universidade ou aos círculos de especialistas. Ele escreve em jornais, participa de conferências, vai à televisão, concede entrevistas, debate questões sociais e culturais de forma acessível. Em resumo, torna-se uma voz audível na sociedade.
Sartre e Camus, na França, ou Ortega y Gasset, na Espanha, são exemplos de intelectuais que falaram para além do ambiente acadêmico. No Brasil, Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freyre ou Darcy Ribeiro desempenharam papéis semelhantes.
Esse tipo de atuação não é necessariamente política no sentido estrito. O intelectual pode desejar apenas esclarecer, orientar, educar. Mas ao se manifestar publicamente, inevitavelmente ele toca em temas que afetam a coletividade, e, por isso, sua palavra se torna politicamente relevante.
Atuação política: o jogo do poder
A atuação política, por sua vez, não se define pela produção de ideias, mas pelo exercício da ação organizada em torno do poder. Aqui estão os partidos, os movimentos sociais, os cargos eletivos, os ministérios e os parlamentos. O político vive do embate direto, da conquista de posições formais, da administração do Estado ou de instituições de poder.
Um militante sindical, um deputado, um prefeito ou mesmo um líder comunitário estão engajados em atuação política. Mas nem sempre são intelectuais. Muitos repetem ideias elaboradas por outros, por vezes sem sequer conhecer a origem dessas ideias. É nesse ponto que a figura do intelectual se revela central, ainda que muitas vezes invisível.
Gramsci e o papel dos intelectuais
Antonio Gramsci, pensador marxista italiano, foi um dos que mais refletiu sobre o papel dos intelectuais na sociedade. Preso pelo regime fascista de Mussolini, escreveu nos célebres Cadernos do Cárcere que “todos os homens são intelectuais, mas nem todos desempenham a função de intelectuais na sociedade”.
Com isso, Gramsci queria dizer que a capacidade de pensar é universal, mas apenas alguns se dedicam a organizar, elaborar e difundir visões de mundo de modo sistemático. Ele distinguia dois tipos principais:
- Intelectuais tradicionais: professores, escritores, religiosos, jornalistas, que se veem como independentes, mas que quase sempre servem a determinada ordem social.
- Intelectuais orgânicos: aqueles que emergem de um grupo social específico, como a classe operária, a burguesia ou os camponeses, e dão voz aos seus interesses, ajudando a consolidar sua visão de mundo.
Para Gramsci, nenhuma classe social consegue conquistar hegemonia, isto é, liderança cultural e política, sem seus intelectuais. São eles que fornecem as categorias, as palavras de ordem, os conceitos e narrativas que estruturam a ação política.
O operário que luta por melhores salários depende de intelectuais que formulem a teoria do sindicalismo. O político que defende a reforma agrária precisa de intelectuais que criem os argumentos históricos e jurídicos para sustentar a causa. Em todos os movimentos, explícitos ou subterrâneos, há sempre intelectuais organizando a base conceitual.
Bastidores e protagonismo político
O curioso é que, muitas vezes, o público não percebe essa engrenagem. Um líder carismático sobe à tribuna e defende ideias que parecem ter brotado espontaneamente de sua experiência pessoal. Mas quase sempre há décadas de reflexão prévia, acumulada por intelectuais que trabalharam nos bastidores.
Getúlio Vargas, por exemplo, encarnou o trabalhismo no Brasil, mas não foi ele quem produziu os conceitos que deram base à sua política. Intelectuais e juristas ao seu redor moldaram o corpo de leis trabalhistas. Da mesma forma, nos anos 1960, a esquerda latino-americana erigiu mitos como Che Guevara ou Marighella, mas a fundamentação teórica vinha de Marx, Lenin, Gramsci, Mao e de intelectuais locais que traduziam essas ideias para o contexto nacional.
O mesmo ocorreu do outro lado. Muitos políticos conservadores, liberais ou religiosos assumiram a dianteira de movimentos que só se sustentaram porque havia uma base intelectual sólida por trás deles. Sem essa sustentação, a retórica política não sobrevive ao primeiro embate.
Intelectuais e movimentos culturais
A influência dos intelectuais não se restringe ao campo político. Ela se manifesta com igual intensidade no plano cultural. Movimentos literários, artísticos e filosóficos frequentemente servem como precursores de transformações políticas.
O Romantismo no século XIX não foi apenas uma escola estética. Ele preparou o terreno para nacionalismos e revoluções. O Modernismo brasileiro, com a Semana de Arte Moderna de 1922, influenciou concepções políticas posteriores, especialmente no modo de pensar a identidade nacional.
Nesses casos, mais uma vez, intelectuais foram decisivos. Muitos deles não ocuparam cargos políticos nem organizaram partidos. Mas criaram atmosferas culturais que moldaram a sensibilidade de gerações, tornando certas opções políticas quase inevitáveis.
O dilema do intelectual
O intelectual com atuação pública enfrenta sempre um dilema: manter-se independente, como observador crítico, ou engajar-se diretamente em causas políticas. Sartre escolheu o engajamento, defendendo o existencialismo como filosofia da ação. Raymond Aron, ao contrário, preferiu a crítica lúcida e distante, mesmo quando isso o tornava impopular.
No Brasil, Olavo de Carvalho, com sua crítica à hegemonia cultural da esquerda, tornou-se um intelectual público de forte impacto político, ainda que muitas vezes dissesse não ter interesse direto em cargos ou em partidos. Seu papel ilustra a força da atuação intelectual: ideias produzidas em cursos e livros acabaram por influenciar uma parte significativa da política brasileira contemporânea.
Palavra final
Intelectual com atuação pública não é o mesmo que atuação política. A diferença está na natureza da ação: o intelectual organiza ideias e valores, enquanto o político busca conquistar e administrar o poder.
No entanto, como ensinou Gramsci, não existe movimento político sem intelectuais. Estes fornecem os mapas conceituais que orientam o caminho. Mesmo quando permanecem nos bastidores, sua presença é decisiva. E quando o político assume o protagonismo de ideias que não criou, está apenas colhendo frutos semeados por uma longa tradição de pensamento.
Por isso, compreender a diferença e a intersecção entre esses dois papéis é fundamental para interpretar a história e a vida pública. Onde há política, houve antes intelectuais. Onde há discursos de massa, houve antes reflexões silenciosas. O palco é dos políticos, mas o roteiro quase sempre foi escrito pelos intelectuais.
