Há momentos na história em que a cultura deixa de ser ornamento, lazer ou privilégio intelectual, para tornar-se uma forma de salvação. Não se trata de salvação em sentido religioso, mas de algo igualmente profundo: um respiro contra a asfixia da barbárie, um refúgio contra a mentira, uma promessa de humanidade no meio da desumanização. Esse é o horizonte em que Gabriel Liiceanu, discípulo de Constantin Noica e herdeiro da tradição filosófica romena, reflete sobre o valor soteriológico da cultura.
O termo soteriológico deriva de soteria, “salvação”. Assim, ao falar do valor soteriológico da cultura, Liiceanu nos convida a perceber como a literatura, a filosofia, a arte e a memória intelectual da Europa não apenas informam ou deleitam, mas podem literalmente salvar a dignidade humana.
O orgulho ferido das pequenas culturas
Liiceanu começa evocando Cioran: “O orgulho de um homem nascido numa pequena cultura é sempre ferido”. Crescer nos limites periféricos da civilização europeia, carregando a consciência de não pertencer aos grandes centros produtores de cultura, significa viver um déficit ontológico.
No entanto, após a Segunda Guerra Mundial e sob o peso do comunismo, esse orgulho ferido foi acompanhado de uma humilhação ainda maior: o projeto político de fabricar o “homem novo”, despido de raízes, desprovido de liberdade, reduzido a engrenagem ideológica. Nesse contexto, reivindicar a herança cultural europeia tornou-se um gesto de resistência.
O intelectual do Leste, humilhado em sua vida concreta, conservava uma riqueza invisível: o vínculo com a grande tradição. Saber Homero, ler Platão, meditar Santo Agostinho ou dialogar com Goethe era um modo de dizer: “sou ainda europeu, sou ainda humano”.
Cultura como oxigênio clandestino
Enquanto no Ocidente a cultura fluía como respiração natural do espírito, no Leste europeu ela se tornou oxigênio clandestino. Era algo escasso, guardado em segredo, assimilado como se fosse contrabando. Ler um livro podia ser um ato de coragem; recordar Sófocles, um gesto de resistência.
Nesse sentido, a cultura assumiu função soteriológica: salvar não o corpo, mas a alma; não a sobrevivência biológica, mas a dignidade espiritual.
Essa inversão nos ensina algo essencial: o valor da cultura não está apenas em seu brilho, mas sobretudo em sua capacidade de oferecer sentido quando tudo o mais colapsa. O espírito de um povo pode ser reduzido ao silêncio político, mas permanece vivo onde houver alguém que, em segredo, recite versos de Dante ou traduza fragmentos de Heráclito.
Cultura e identidade europeia
O intelectual do Leste pós-guerra, ao dialogar com seus pares do Ocidente, reivindica uma pertença: “olhem para mim, também sei ler, também posso discutir Platão, Shakespeare, Kafka”. Essa não é uma reivindicação banal de status, mas uma exigência existencial. Ser europeu, aqui, significa não ter sido totalmente absorvido pelo maquinário ideológico da mentira.
A cultura se torna, assim, a fronteira entre humanidade e desumanização. Enquanto a política buscava moldar um ser “novo”, homogêneo e dócil, a cultura lembrava ao indivíduo que ele era parte de uma história mais longa, rica de tensões, ambiguidades e grandezas.
O valor soteriológico no mundo contemporâneo
Hoje, quando a palavra “salvação” parece restrita ao vocabulário religioso, a reflexão de Liiceanu adquire uma força renovada. Vivemos em sociedades que, embora não submetidas ao totalitarismo do século XX, experimentam novas formas de vulgaridade e ideologia: consumismo desenfreado, espetacularização da vida, erosão da memória cultural.
Também aqui a cultura pode ter função soteriológica. Não porque nos promete escapar da morte, mas porque nos salva da pior forma de morte em vida: a perda da profundidade, a anestesia do espírito, a submissão à banalidade. Ler ainda Homero, revisitar Shakespeare, escutar Bach ou contemplar Van Gogh pode ser, em nossos dias, um ato de resistência contra a lógica que nos reduz a consumidores.
Filosofia como respiração
A filosofia, nesse cenário, não é mero exercício acadêmico. É, como dizia Sócrates, um aprender a morrer – e, por isso mesmo, um aprender a viver. O valor soteriológico da cultura, visto filosoficamente, consiste em lembrar-nos de que somos mais do que indivíduos isolados; somos parte de uma conversação milenar que atravessa séculos.
Essa conversação não salva o corpo, mas pode salvar a alma do desespero e da insignificância. É ela que permite ao homem, em meio à adversidade, dizer: “sou ainda humano, porque posso pensar, posso dialogar, posso imaginar”.
Palavra final
O ensaio de Liiceanu nos recorda que a cultura é mais do que patrimônio, mais do que erudição ou passatempo. Ela é, em certas circunstâncias, uma questão de vida ou morte espiritual.
O valor soteriológico da cultura reside precisamente nisso: em tempos de opressão, ela é clandestinidade que protege; em tempos de abundância, é resistência à vulgaridade; em todos os tempos, é promessa de que a dignidade humana pode ser preservada.
Ser culto, afinal, não é apenas conhecer autores e estilos, mas carregar consigo a memória viva de uma humanidade que, apesar de guerras, tiranias e esquecimento, ainda sabe respirar.
