O que torna uma ação moralmente correta?
Essa é talvez a pergunta mais antiga da ética, e também a mais urgente. O que separa o ato justo do injusto, o gesto honesto da dissimulação, a escolha nobre da vileza disfarçada? Desde os diálogos socráticos até os tratados contemporâneos de filosofia moral, essa interrogação permanece aberta, sempre renovada diante de novas realidades, mas enraizada em uma estrutura perene.
Para os gregos, a ação moral era aquela que se ajustava à razão e à ordem do cosmos. Platão concebia a justiça como uma harmonia entre as partes da alma, enquanto Aristóteles definia o bem moral como aquilo que conduz ao florescimento da natureza humana, a eudaimonia. O homem virtuoso era o que escolhia com prudência o meio-termo entre os extremos, adequando meios aos fins segundo a razão prática.
Cícero, em Roma, aproximava a moralidade da própria ideia de direito natural. Dizia que só a ação conforme a razão universal podia ser chamada de reta. Para ele, existia uma lei superior à dos homens: a consciência.
Na Idade Média, Tomás de Aquino integrou essa herança clássica com a revelação cristã. Sistematizou o juízo moral de cada ato a partir de três elementos: o fim, o objeto e as circunstâncias. Para Tomás, nenhuma boa intenção podia justificar um ato intrinsecamente mau. E nenhuma circunstância, por mais dramática que fosse, podia tornar bom o que era mal em sua essência.
Na modernidade, Kant defendeu que o valor moral de uma ação reside na intenção pura do dever. Um ato é moral quando poderia ser universalizado como lei para todos. A mentira, por exemplo, jamais poderia ser justificada por boas intenções, pois violaria a dignidade da razão.
Já Simone Weil, testemunha do século XX, enxergava no enfraquecimento da consciência moral a raiz de todas as desordens sociais. Para ela, uma ação só é verdadeiramente boa quando nasce de uma obediência à ordem do bem, que transcende o ego e se impõe como um apelo silencioso da verdade.
É com base nessa tradição que podemos compreender os três pilares que sustentam o juízo moral de uma ação: o fim, o objeto e as circunstâncias. Cada um deles será agora analisado com o cuidado que a seriedade do tema exige.
I. O fim: a intenção que move o coração
O fim, também chamado de intenção, é o motivo pelo qual o sujeito realiza determinada ação. Ele reside na vontade consciente do agente. Santo Agostinho já dizia: “Duas pessoas podem dar uma esmola; uma por vaidade, outra por compaixão. A ação é a mesma, mas o valor moral é totalmente diferente.”
O fim orienta a vontade, e é a partir dele que o sujeito moral revela o seu grau de consciência e responsabilidade. Kant, na sua ética do dever, afirmava que o valor moral de uma ação reside na intenção de cumprir o dever por respeito à lei moral. Fazer o bem por interesse pessoal ou medo da punição não basta. A ação deve brotar de um imperativo interior que transcenda o egoísmo.
No entanto, um fim bom não santifica um meio perverso. Um médico pode desejar salvar vidas, o que é um fim bom, mas se tortura um prisioneiro para obter informações, o meio utilizado é moralmente inadmissível. O que nos leva ao segundo princípio.
II. O objeto: o que se faz, em si mesmo
O objeto é o ato concreto realizado, a ação moral em si, considerada segundo sua natureza. Aqui, a moral se torna mais objetiva. Não se trata apenas de por que alguém faz algo, mas do que está sendo feito.
Para Tomás de Aquino, certos atos são intrinsecamente maus, independentemente da intenção ou das circunstâncias. Matar um inocente, estuprar, mentir sob juramento, esses atos são, por sua própria estrutura, contrários à ordem da razão. Mesmo que alguém minta para “proteger” outro, a mentira continua sendo um mal moral.
Agostinho insistia na ideia de que não basta agir com boa vontade, é preciso que o que se faz seja bom. E Aristóteles, ao tratar da phronesis (prudência), observava que a moralidade exige adequação entre meios e fins. O homem virtuoso não é apenas aquele que quer o bem, mas que sabe escolher os meios certos para alcançá-lo.
Um exemplo histórico trágico é o caso dos burocratas do regime nazista. Muitos diziam que apenas obedeciam ordens, e que suas intenções não eram más. Mas ao colaborar com a deportação de judeus e com crimes contra a humanidade, cometiam atos cujo objeto era intrinsecamente injusto. O simples fato de executar ordens não absolve ninguém da responsabilidade moral.
III. As circunstâncias: o contexto que pode agravar ou atenuar
O terceiro pilar diz respeito às circunstâncias. Tempo, lugar, modo, intenção secundária, consequências previsíveis, entre outros. Elas não determinam por si mesmas o valor moral de uma ação, mas podem modificar sua gravidade ou até influenciar a culpabilidade do agente.
Por exemplo, o furto de um bem pequeno e descartável não tem o mesmo peso moral do desvio milionário de verbas públicas. Matar em legítima defesa não é moralmente igual a matar por ódio. Uma mentira dita num contexto de brincadeira infantil não tem o mesmo impacto de uma falsidade jurada num tribunal.
É aqui que entra o papel da prudência, a virtude que integra a inteligência e a consciência moral diante das situações concretas. A prudência julga o tempo oportuno, o modo de agir, os riscos envolvidos, os efeitos colaterais. Sem ela, a moral vira rigidez cega ou sentimentalismo frouxo.
Quando o subordinado também é responsável
A alegação de “cumprir ordens” tem sido um refúgio clássico para os covardes morais. No julgamento de Nuremberg, após a Segunda Guerra, os oficiais nazistas afirmaram que apenas obedeciam ordens superiores. O tribunal rejeitou essa justificativa. E com razão. A obediência não anula a consciência. Cada pessoa continua responsável por aquilo que consente, executa ou permite.
A tradição filosófica é clara. Obedecer a uma autoridade não é uma justificativa automática para fazer o mal. Em A República, Platão narra como Sócrates preferiu a morte ao cumprir uma ordem do governo que considerava injusta. Kant, em sua ética da autonomia, sustentava que a dignidade humana está na capacidade de agir segundo princípios que possam ser universalizados, e não segundo ordens externas.
Simone Weil foi ainda mais incisiva. “A obediência cega é a mãe de todas as perversões sociais.” Um soldado que obedece a um comandante criminoso não é inocente. Um funcionário público que colabora com um regime tirânico, mesmo que passivamente, não está isento de culpa.
Considerações finais: um chamado à consciência
Vivemos num tempo em que as pessoas agem por instinto, por cálculo ou por medo. A filosofia moral, quando corretamente compreendida, é um grito contra a mediocridade ética. Ela não nos oferece receitas prontas, mas critérios sólidos para julgar e agir com retidão.
A consciência moral é a sentinela interior que exige que sejamos responsáveis por nossos atos. Obedecer cegamente é abdicar da dignidade. Agir por intenções nobres com meios imorais é corrupção disfarçada.
Retomar o tripé do juízo moral, fim, objeto, circunstância, é um ato de resistência contra a banalização do mal, contra a cultura do autoengano e contra o culto da autoridade sem responsabilidade.
Se quisermos reconstruir a Ética em nossa civilização, teremos de começar por aquilo que ela tem de mais íntimo: a escolha livre diante do bem e do mal. Não há outro caminho.
