Filosofia nasceu na praça pública,com Sócrates, e não no ambiente acadêmico da Universidade.

Durante séculos fomos ensinados a associar a filosofia à universidade. Cadeiras acadêmicas, currículos, diplomas, conferências. Essa imagem de um saber fechado entre as paredes da instituição parece natural para muitos. No entanto, ela distorce a origem e a verdadeira natureza da filosofia. A filosofia nasceu na praça pública, no espaço aberto do diálogo, como uma vocação existencial e não como uma profissão. É urgente recuperar esse espírito, sobretudo numa época em que a filosofia acadêmica frequentemente se converte em jogo de vaidades, jargões estéreis e submissão ideológica.

Sócrates é o símbolo inaugural da filosofia no Ocidente. E ele não era professor universitário, nem sequer deixou escritos. Sua “sala de aula” era a praça de Atenas, os mercados, os ginásios, os tribunais. Ele abordava cidadãos comuns, jovens, artesãos, políticos, soldados. Interrogava com ironia e seriedade, não para ensinar doutrinas, mas para despertar a consciência. O que é a justiça? O que é a virtude? O que é uma vida boa? Sócrates não vendia aulas. Ele praticava a filosofia como um chamado da alma, um dever diante da verdade, mesmo que isso lhe custasse a vida.

Essa concepção da filosofia como vocação precede qualquer institucionalização. A Academia fundada por Platão ou o Liceu de Aristóteles já representam tentativas de estruturar esse impulso socrático num formato mais duradouro. Mas mesmo ali, a filosofia ainda era uma forma de vida: não se tratava de formar especialistas, mas de cultivar a alma, educar o caráter, buscar a sabedoria. Ao longo da história, essa tensão entre filosofia como vocação e filosofia como profissão se manteve viva, e muitas vezes os maiores filósofos foram justamente aqueles que recusaram o conforto institucional.

Nietzsche é um exemplo central. Ele começou sua vida como professor universitário de filologia clássica, mas logo percebeu que aquele ambiente engessado, burocrático e politicamente submisso não era lugar para a liberdade do espírito. Rompeu com a universidade e passou a viver como um pensador errante, escrevendo suas obras com total independência. Sem cargo, sem reconhecimento oficial, muitas vezes sem leitores. E foi nesse exílio voluntário que ele escreveu seus livros mais potentes, como Assim Falou Zaratustra, Para Além do Bem e do Mal e A Genealogia da Moral. Nietzsche atacou duramente a filosofia acadêmica de seu tempo, que ele via como covarde, conformista e desprovida de grandeza. Para ele, o verdadeiro filósofo é aquele que cria valores, que vive perigosamente, que faz da própria vida uma obra de arte.

Outros grandes pensadores trilharam caminhos semelhantes. Kierkegaard, na Dinamarca do século XIX, escreveu toda a sua obra filosófico-existencial fora das instituições. Ele recusou uma carreira acadêmica, preferindo dialogar com o público de sua cidade por meio de ensaios publicados em jornais, panfletos e livros. Sua filosofia era profundamente pessoal, marcada pela angústia, pela fé e pela exigência de decisão individual. Kierkegaard entendia que a verdade não é algo que se aprende em aula, mas algo que se torna real na existência concreta de cada pessoa.

Simone Weil também seguiu esse caminho. Apesar de ter uma formação brilhante e ter lecionado por um tempo, ela abandonou a vida acadêmica para viver entre os operários, mergulhar na condição dos pobres, experimentar na carne o sofrimento do mundo. Sua filosofia, enraizada na ação e na contemplação, nos convida a superar o ego, a prestar atenção ao outro, a buscar a justiça com espírito sacrificial. Weil via a filosofia como um caminho de santidade, não como uma carreira.

Podemos lembrar ainda de Pascal, que não tinha cátedra; de Montaigne, que filosofava em seu castelo escrevendo ensaios; de Rousseau, que rompeu com o mundo letrado e buscou na natureza a fonte da verdade moral; de Thoreau, que se isolou em Walden para viver com radicalidade suas ideias; e mesmo de Dostoiévski, cuja ficção mergulha em questões filosóficas profundas, embora ele jamais tenha se pensado como filósofo profissional.

Esses exemplos nos mostram que a filosofia mais viva, mais transformadora, mais necessária, frequentemente brota fora da universidade. Isso não significa que o ambiente acadêmico deva ser desprezado em si. Em muitos momentos da história ele abrigou grandes nomes e gerou obras relevantes. Mas há uma diferença crucial entre usar a estrutura acadêmica como meio de aprofundamento e fazer dela um fim em si mesmo, um abrigo para a mediocridade ou a conveniência ideológica.

Filosofia é antes de tudo vocação. É o chamado da alma inquieta, que não se satisfaz com respostas prontas. É o impulso para pensar por si mesmo, para buscar a verdade a qualquer custo, para colocar a própria vida em questão. A filosofia nasce quando alguém diz: “não sei, quero saber”. E isso pode acontecer em qualquer lugar: numa praça, numa cela, num campo de trabalho, num quarto silencioso. O verdadeiro filósofo não precisa de crachá, nem de cargo. Precisa de coragem, sede de verdade e amor pelo logos.

Por isso é tão importante resgatar o espírito da praça pública. O espaço aberto onde as ideias circulam livremente, onde as diferenças se confrontam, onde a palavra vale mais do que o diploma. Hoje, com a internet, vivemos uma nova ágora digital. Milhares de jovens e adultos descobrem a filosofia por conta própria, assistem aulas online, leem livros, escrevem, debatem. É uma oportunidade única de devolver à filosofia seu caráter original: livre, inquieto, transformador.

Mas há um risco. Sem orientação, muitos podem cair em superficialidades, modismos ou falsos mestres. Por isso, é necessário cultivar o rigor, estudar os clássicos, exercitar o pensamento lógico, confrontar ideias opostas. Filosofar fora da universidade não significa desprezar o saber sistemático, mas colocar esse saber a serviço da verdade interior. É necessário também criar comunidades de estudo, círculos de leitura, projetos intelectuais independentes que mantenham viva essa vocação.

Nietzsche dizia que os grandes filósofos são como cometas, solitários, brilhantes, inclassificáveis. Mas até os cometas precisam de céu. Precisamos de espaço para pensar, dialogar, errar, corrigir, crescer. Se a universidade não quer mais ser esse lugar, que a praça pública volte a sê-lo. Que voltemos a pensar juntos, com paixão e honestidade.

A filosofia não nasceu com um diploma. Nasceu com uma pergunta. E talvez o futuro da filosofia esteja nas mãos daqueles que, longe dos salões oficiais, ainda ousam perguntar.