Durante séculos, a autoridade política no Ocidente era conferida por instituições espirituais. Reis eram ungidos com óleo sagrado e legitimados por bispos, papas e doutrinas que remontavam à origem divina do poder. A Igreja não apenas sancionava os governantes como também moldava o imaginário coletivo, oferecendo critérios morais para julgar a justiça e a legitimidade do poder. Essa função não desapareceu com a secularização da política. Ela foi apenas deslocada, hoje é ocupada, em grande parte, por jornalistas e intelectuais.
Antônio Gramsci, o grande teórico marxista italiano, já havia identificado que a hegemonia cultural precede a tomada do poder político. Para conquistar o Estado, seria necessário antes moldar a consciência social. Essa tarefa caberia aos intelectuais orgânicos, que não estariam nas universidades apenas como estudiosos neutros, mas como agentes de transformação. Entre esses, o jornalista desempenhava um papel estratégico. Ele era o elo entre o pensamento crítico e a população, o mediador da nova ortodoxia, o formador da opinião pública. O jornal, nesse contexto, era mais do que um veículo de notícias: era uma trincheira ideológica.
Hoje, o que Gramsci previu é uma realidade consolidada. A função que antes era exercida pelo púlpito religioso, agora pertence à redação dos jornais e aos estúdios de televisão. O jornalista tornou-se uma espécie de sacerdote secular, responsável por atribuir sentido aos acontecimentos, interpretar o mundo e indicar quais valores devem ser seguidos. Ele não apenas informa, mas guia. Não apenas relata, mas impõe o enquadramento das notícias que interessam.
Essa nova configuração do poder simbólico é descrita por Flávio Morgenstern em sua análise da função da mídia contemporânea. Segundo ele, vivemos uma transição do mundo da autoridade para o mundo do controle. A autoridade tradicional, baseada em fundamentos religiosos, éticos ou filosóficos, foi substituída por um sistema de controle simbólico em que jornalistas e intelectuais determinam o que deve ser aceito como verdade ou como erro. O novo sacerdote não recorre à revelação divina, mas à chancela institucional e à popularidade nas redes sociais. Ele decide o que é ciência, o que é justiça, o que é ódio e o que é virtude. Sua autoridade não vem da verdade, mas da visibilidade.
Na prática, isso significa que governos não são mais legitimados por sua adesão a princípios, mas por sua aceitação por parte da mídia e da academia. Um presidente pode ser eleito democraticamente e ainda assim ser considerado ilegítimo se não contar com a aprovação dos grandes veículos de comunicação. A opinião pública é fabricada por meio de análises editoriais, reportagens enviesadas e especialistas cuidadosamente selecionados para reforçar a visão de mundo dominante. A imprensa deixou de ser o espelho da sociedade e tornou-se seu oráculo.
Esse fenômeno também se manifesta na personalização do poder midiático. Não é mais o jornal que confere autoridade ao jornalista; é o jornalista que dá prestígio ao jornal. A credibilidade se transfere da instituição para o indivíduo, e o indivíduo passa a funcionar como referência moral. Artigos de opinião substituem sermões, colunistas substituem profetas. No lugar das epístolas de Paulo, temos colunas semanais em que o novo magistério ensina o que é certo e errado de acordo com os dogmas do dia.
Enquanto isso, o público abandonou a leitura de obras filosóficas, teológicas e literárias profundas. Poucos leem os clássicos ou buscam fundamentos sólidos para suas convicções. Em vez disso, consomem opiniões fragmentadas, formatadas para o consumo imediato, empacotadas como verdades inquestionáveis. A autoridade do saber foi substituída pela autoridade da manchete. A verdade, que deveria ser o fruto de uma busca pessoal e racional, tornou-se um produto de marketing, certificado por um título de colunista e distribuído por algoritmos.
Essa nova forma de sacerdócio, entretanto, não oferece transcendência. Ela não aponta para o eterno, mas para o efêmero. Não guia o homem em direção ao absoluto, mas o aprisiona na agenda do dia. Ao assumir a função de intérprete do real, a mídia deixou de ser um meio e tornou-se um fim. Ela não apenas reporta a realidade; ela decide o que é real e o que deve ser ignorado. Isso a coloca numa posição de poder que ultrapassa o político e se aproxima do teológico.
Se outrora a Igreja era acusada de monopolizar a verdade, hoje esse monopólio pertence a um novo clero: o dos jornalistas e intelectuais. A diferença é que este último opera sem a confissão pública de seus dogmas e sem a consciência do papel que desempenha. É um sacerdócio sem liturgia, mas com autoridade incontestável.
A crítica gramsciana à hegemonia cultural talvez nunca tenha sido tão atual, ainda que invertida. Se, no passado, ela foi usada para justificar a conquista do poder pelas massas, hoje é usada para blindar elites que se acreditam detentoras do monopólio do sentido. A única resposta possível está na recuperação da consciência filosófica, na busca pela verdade, não como imposição, mas como descoberta, uma tarefa que nenhum jornalista pode realizar por nós.
