Grandes escritores que foram também jornalistas , em outra época da imprensa brasileira.


Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Paulo Francis. Todos foram mais do que escritores, foram também jornalistas brilhantes.Neste artigo, você vai entender por que o jornalismo já foi literatura, e por que ainda pode ser, desde que a linguagem não seja sacrificada no altar da pressa e da mediocridade.

Existe um mito persistente que separa jornalismo e literatura como se fossem dois continentes incomunicáveis. De um lado, o mundo dos fatos. Do outro, o reino da imaginação. Essa dicotomia, repetida por ignorância ou má-fé, é desmentida pela própria história da cultura brasileira. Nossos maiores escritores foram também jornalistas. A imprensa foi, por muito tempo, o berço da verdadeira literatura nacional.

Os jornais como catedrais do pensamento brasileiro

Durante boa parte do século XX, o jornal era o palco da inteligência. Era lá que se escrevia com sangue, com veneno, com estilo. Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, todos trabalharam na imprensa. Não como tarefeiros de redação, mas como estilistas da língua, cronistas da alma nacional, ensaístas disfarçados de repórteres.

A crônica moderna, por exemplo, nasceu no jornal. Rubem Braga, o maior de todos, nunca publicou um romance. Mesmo assim é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa.Sua oficina era a página do jornal, e sua matéria-prima era a vida urbana, trivial, cotidiana. Transformava o banal em beleza. Isso é ou não é literatura?

Alguns dos maiores escritores do século XX nasceram na redação. Gabriel García Márquez foi repórter antes de ser Nobel. Truman Capote reinventou o romance ao escrever A Sangue Frio, uma reportagem com estrutura de ficção. Gay Talese, Joan Didion, Norman Mailer, todos transformaram o jornalismo em literatura, no movimento que ficou conhecido como New Journalism.

No Brasil, temos Carlos Heitor Cony, cronista ácido e romancista denso. Carlos Lacerda, que escrevia como quem atira. E Paulo Francis, que fazia do artigo jornalístico um exercício de ironia, cultura e estilo. Nenhum deles separava jornalismo de literatura. Para eles, o que importava era a linguagem e a verdade.

ABL: a tradição literária acolhendo jornalistas

Essa união entre jornalismo e literatura não ficou sem reconhecimento institucional. A Academia Brasileira de Letras, guardiã da tradição literária nacional, abriga diversos jornalistas entre seus imortais. Alceu Amoroso Lima, que escreveu durante décadas na imprensa como Tristão de Athayde, é um exemplo maior. Seu livro Jornalismo como gênero literário é uma defesa firme da pena jornalística como instrumento de criação estética e moral.

Alceu enxergava o jornalismo como a literatura da realidade imediata. Para ele, o escritor que despreza o jornal ignora a sua época. E o jornalista que escreve sem estilo trai a própria missão. Escrever é formar, e formar exige mais que informar. Exige espírito.

Outros imortais que vieram do jornalismo são João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Austregésilo de Athayde, Barbosa Lima Sobrinho. Em todos eles, vemos a confirmação de que o jornal não é um antro de burocracia informativa. Pode ser, e já foi, templo de arte viva.

O jornalismo literário no Brasil: auge e declínio

Nos anos 60, a revista Realidade elevou o jornalismo brasileiro ao nível da arte. Reportagens longas, apuradas, escritas com recursos narrativos próprios da ficção. Era o auge do chamado jornalismo literário, onde o real era contado com beleza e complexidade. Mais tarde, Eliane Brum e José Hamilton Ribeiro manteriam essa chama acesa.

Mas esse modelo exige tempo, cultura, investimento. O jornalismo atual, colonizado pelas redes sociais e pela lógica do clique, sofre uma degradação brutal. O estilo virou supérfluo. A profundidade virou luxo. E a verdade virou narrativa de interesse.

O jornalismo como arte da realidade

Mesmo num cenário de crise, o jornalismo ainda pode ser literatura. Para isso, é preciso que o jornalista se veja como escritor. Alguém que não apenas informa, mas dá forma ao mundo. Que busque a precisão, não apenas do dado, mas da frase. Que ame a língua, não apenas como instrumento, mas como destino.

Escrever jornalismo com vocação literária é possível. É necessário. É urgente. Sob pena de que o jornalismo se torne apenas um ruído entre os algoritmos, enquanto a literatura, exilada das redações, se refugia nos círculos estéreis dos salões. Como dizia Nelson Rodrigues: Sem literatura, até a verdade se torna chata.

Não há jornalismo verdadeiro sem domínio da língua portuguesa.

O jornalismo pode ser uma forma de literatura. Não no sentido de abandonar os fatos, mas no de dar a eles a dignidade da arte. O jornalista, como o escritor, é um cultor permanente do mais importante tesouro cultural: a língua. Sua missão não é apenas noticiar, mas narrar o mundo com precisão, beleza e coragem.

Nos grandes momentos da nossa história cultural, o jornalismo foi literatura viva. Ainda pode voltar a ser, se formos capazes de resgatar o estilo, a verdade e o espírito de grandeza que fizeram da pena jornalística uma arma tão poderosa quanto qualquer romance.