“O imbecil coletivo,” um livro essencial para compreender a intelectualidade brasileira.

O título do livro O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, não é fruto do acaso ou de um impulso meramente provocador. Trata-se de uma paródia estratégica, filosófica e profundamente crítica ao conceito gramsciano de “intelectual coletivo”. O alvo é claro: desmascarar a função social que os intelectuais de esquerda passaram a exercer na vida pública brasileira ,não como buscadores da verdade, mas como correias de transmissão de uma ideologia. A partir dessa chave, é possível compreender o verdadeiro alcance da obra olaviana como um movimento de contra-hegemonia cultural.

Antonio Gramsci, marxista italiano, redefiniu o papel dos intelectuais dentro da luta de classes. Para ele, o intelectual não era apenas o pensador isolado, mas uma função orgânica de uma classe social. Em seus Cadernos do Cárcere, Gramsci define o “intelectual coletivo” como aquele que atua dentro de partidos ou organizações, formulando e difundindo uma visão de mundo. O Partido Comunista, por exemplo, seria o intelectual coletivo da classe trabalhadora. Essa concepção substitui a ideia clássica de um intelectual autônomo pela figura de um agente estratégico da revolução cultural.

Em outras palavras, o papel do intelectual, segundo Gramsci, não é o de buscar a verdade em si mesma, mas o de criar e consolidar uma hegemonia cultural favorável à sua classe. Ele deve reeducar a sociedade por meio da cultura, da educação, da arte e da imprensa. A batalha das ideias se torna, portanto, uma guerra pelo poder simbólico, em que o conteúdo das ideias é menos importante que sua eficácia política.

É justamente esse tipo de operação intelectual que Olavo de Carvalho denuncia em O Imbecil Coletivo. Para ele, o intelectual orgânico gramsciano, especialmente na realidade brasileira , se degradou em um simulacro de pensador. Ao invés de produzir reflexão, produz slogans. Em vez de julgar os acontecimentos com base na verdade objetiva, adapta o discurso ao interesse do grupo. O intelectual que deveria ser o guardião da consciência pública, torna-se um funcionário ideológico.

A expressão “imbecil coletivo” tem, nesse contexto, um sentido técnico. Olavo não está apenas insultando. Está descrevendo um fenômeno. O imbecil coletivo é o sujeito que, mesmo tendo inteligência natural, opta por abdicar dela em troca de segurança ideológica e prestígio grupal. É o universitário que não lê os autores originais, mas repete chavões. É o jornalista que camufla os fatos em nome de uma causa. É o professor que silencia sobre verdades incômodas para não ser excluído do meio acadêmico.

Na concepção olaviana, o verdadeiro intelectual é aquele que busca a verdade acima de tudo — mesmo que isso custe sua posição, sua aceitação ou sua tranquilidade. Esse é o ponto de ruptura com Gramsci. Para Olavo, pensar é um ato moral. A inteligência exige coragem. O compromisso com a verdade é anterior a qualquer lealdade política ou pertencimento de classe. Por isso, o “intelectual coletivo” gramsciano é, para ele, uma contradição em termos: ao renunciar ao julgamento individual, o sujeito renuncia à própria inteligência.

A crítica de Olavo ganha ainda mais força quando observamos a prática cultural das últimas décadas no Brasil. A hegemonia cultural de esquerda, moldada sob os moldes gramscianos, produziu exatamente o fenômeno que Olavo denuncia: uma elite intelectual que pensa em bloco, que recita mantras ideológicos, que se refugia em fórmulas, e que, acima de tudo, não tolera a dissidência. Essa homogeneidade de pensamento, promovida em nome da diversidade, é um dos principais alvos do livro.

No capítulo “Letrados & Bandidos”, Olavo expõe de forma precisa como a aliança entre os intelectuais e os revolucionários de ocasião degradou não apenas a linguagem, mas o próprio espírito da cultura. Os letrados não pensam mais com a própria cabeça: tornam-se cúmplices da degradação, justificado-a com jargões filosóficos e citações de segunda mão. Os bandidos não agem mais no submundo: atuam no parlamento, nas universidades, nas ONGs, com o beneplácito dos formadores de opinião.

Essa simbiose entre bandidagem e intelectualidade é o ápice da traição à inteligência. O letrado que deveria apontar os desvios da história passa a justificar o desvio como progresso. A cultura se torna instrumento de chantagem emocional e adestramento ideológico. O papel do intelectual, nesse cenário, não é mais iluminar o real, mas obscurecê-lo. Sua função não é julgar, mas acobertar.

Olavo, ao zombar do intelectual coletivo, aponta o caminho inverso: o da formação da consciência individual. Sua proposta pedagógica, expressa no Curso Online de Filosofia, busca restaurar a soberania do juízo pessoal. Contra a uniformização do pensamento, ele propõe a hierarquia da cultura clássica. Contra a pedagogia do ressentimento, a disciplina da verdade. Contra o coletivo amedrontado, o indivíduo responsável.

A paródia do título revela, portanto, uma guerra profunda entre duas concepções de cultura. De um lado, a cultura como instrumento de hegemonia e poder, como propõe Gramsci. De outro, a cultura como via de elevação espiritual e intelectual, como propõe Olavo. E no meio, o leitor, convidado a decidir se será mais uma célula do imbecil coletivo ou um ser pensante capaz de julgar o mundo com liberdade e coragem.

Essa escolha não é fácil. Exige renúncia ao conforto do pertencimento. Exige risco. Exige estudo sério, paciência, e principalmente, amor pela verdade. Mas é a única escolha possível para quem deseja manter viva a inteligência.

O título O Imbecil Coletivo não é só uma provocação. É um diagnóstico e um chamado. Um diagnóstico do colapso da inteligência que se rende à ideologia. E um chamado à restauração do espírito crítico, da cultura viva, da verdade como vocação. Em outras palavras, um chamado à filosofia — a única força capaz de destruir o mito do coletivo e devolver ao homem sua dignidade de ser pensante.