A vida humana é uma estrutura de virtualidades ativas.

Imagine-se em um quarto silencioso, diante de um espelho que não reflete seu corpo, mas todos os seus desejos, memórias, planos, culpas e fantasmas. Esse espelho, ainda que impalpável, é mais real do que a cadeira onde você se senta. A criança que chora por seu ursinho ausente sofre não pelo que está, mas pelo que não está, por aquilo que vive na memória e na expectativa. Mesmo um cão, ao reconhecer seus filhotes após uma breve ausência, age sobre uma memória, uma realidade virtual que organiza sua conduta.

O que chamamos de personalidade é também uma unidade virtual. Nenhum momento físico contém a totalidade do que somos. Nossa biografia inteira, ainda que possa ser contada, só existe como uma estrutura de sentido em nossa consciência, nunca como presença física. O ser humano vive, essencialmente, num mundo de possibilidades, símbolos, lembranças e expectativas. A realidade com a qual lidamos todos os dias, o que esperamos, o que planejamos, o que tememos, é composta de virtualidades. O mundo físico, presente, tangível, é apenas uma fatia ínfima e muitas vezes irrelevante da vida real.

A tragédia brasileira consiste justamente em ignorar isso. No Brasil, só é considerado sério o que se pode ver, tocar, medir. A cultura nacional despreza o mundo virtual, isto é, o mundo real do homem, e cultua a presença física imediata como se ela fosse o único critério de verdade. Isso gera uma sociedade atrofiada, infantilizada, dominada por um dualismo paralisante. De um lado, o chamado real das obrigações, das contas e do emprego. De outro, o ideal dos sonhos, da arte, das vocações. Resultado: o fracasso é a norma, a vocação é um luxo e o trabalho vira um castigo. E o pior, um castigo injusto.

O brasileiro médio vive numa farsa moral. Ele deseja viver de suas aspirações superiores, mas considera imoral ter que pagar por isso com esforço próprio. Sustentar-se, prover a própria vida, cuidar da família, tudo isso é visto como imposição absurda de um mundo hostil. Trabalhar virou sinônimo de punição. E não trabalhar, sinônimo de seguir seu sonho. O brasileiro não quer trabalhar por seus ideais. Ele quer que os outros trabalhem para que ele os realize.

Essa é a essência do fracasso civilizacional. Uma sociedade que dissocia dever de vocação, ideal de esforço, automaticamente fabrica derrotados. No Brasil, ser um fracassado é normal, esperado. Ser bem-sucedido virou exceção, milagre ou suspeita de crime. Todo plano de vida é recebido com desdém. A família, os amigos e o meio social se apressam a aconselhar o jovem sonhador: seja realista, faça concurso público, case, compre um carro. O resto é presunção.

É por isso que Olavo de Carvalho insistia na importância do exercício do necrológio, escrever, como um obituário, quem você gostaria de ter sido. Não se trata de um jogo de vaidades, mas de um confronto com a realidade mais íntima. O que você realmente deseja ser? Que legado gostaria de deixar? E mais, o que está disposto a sacrificar para que esse plano se realize?

Mas o que a cultura brasileira fez com essa pergunta? Ela a ridicularizou. Transformou todo ideal em devaneio e toda ação moral em alienação. O Brasil é hoje uma terra de vocações frustradas, não por falta de talento, mas por uma sabotagem sistemática da alma humana. A linguagem pública foi reduzida ao banal. As escolas, que deveriam expandir a consciência, apenas entregam diplomas de analfabetismo funcional. A literatura, fonte de símbolos, estilos e estrutura, foi transformada em cadáver acadêmico.

A educação deveria servir para elevar o vocabulário até o nível da experiência. Mas aqui faz o oposto. A experiência cresce, se complica, se enriquece, e a linguagem estagna. O indivíduo sente o mundo com intensidade crescente, mas só consegue falar com palavras de criança. O resultado é o descompasso brutal entre o que se vive e o que se consegue pensar sobre o que se vive. E nisso, o povo se banaliza. Perde-se a consciência de si. Perde-se a capacidade de narrar a própria história. E quem não narra a própria história acaba atuando no roteiro alheio.

A cultura brasileira precisa de uma restauração simbólica. E ela começa pelo resgate da linguagem. A leitura de grandes escritores, não para estudá-los, mas para imitá-los, é a primeira escola de reintegração da personalidade. Imitação não é servilismo, é técnica. Aprender a usar os instrumentos expressivos dos grandes mestres é como aprender a manejar armas antes de ir ao combate. A originalidade que importa é a que emerge naturalmente, depois de anos de domínio. Antes disso, a obrigação é ser discípulo.

Contra a farsa cultural brasileira, não há outro caminho senão este: aceitar o dever moral de trabalhar, estudar, dominar a linguagem, formular um plano de vida real e realizar esse plano com coragem, integridade e fé. O plano de vida só faz sentido quando você entende que a realidade é o campo de batalha onde ele se desenrola, e não um obstáculo externo que o impede. O ideal não se opõe ao real. O ideal é a forma que a realidade assume quando iluminada por um centro interior. Esse centro é você, não sua imagem, mas seu eu agente, criador, moralmente responsável.

Portanto, a revolução necessária no Brasil não é política, nem econômica, nem jurídica. Ela é espiritual. É uma guerra cultural. E ela só será vencida quando uma nova geração compreender que a vida humana é uma estrutura de virtualidades ativas, e que viver é atualizar essa potência na luta concreta do tempo. Enquanto o Brasil continuar cultuando o presente físico como critério do real, continuará sendo um país de derrotados contentes e de heróis abortados.

Avante, nobreza obriga!